terça-feira, 19 de maio de 2009

Xadrez de Jorge Luis Borges


Ao pesquisar dados sobre o que vou publicar a seguir, encontrei-me com um post no Blogue dum dos nossos colegas do GXA, o Sr. José Fernandes dos Santos, onde ele já tem falado sobre uma das obras deste consagrado e para muitos genial escritor universal de origem argentina.
 Estou a falar de Jorge Luis Borges, quem disse alguma vez entre tantas outras sabias coisas: " Há quem esteja orgulhoso pelo que tem escrito. Eu estou orgulhoso pelo que tenho lido ".
E eu, por tanto, estou orgulhoso por ter lido e relido este Poema:

Xadrez
 I
Regem no seu recanto os jogadores 

As lentas peças. Esse tabuleiro 
Demora-os toda a noite no severo 
Âmbito em que se odeiam duas cores. 

Dentro irradiam mágicos rigores 
As formas; torre homérica, ligeiro 
Cavalo, sagaz dama, rei postreiro, 
Bispo oblíquo e peões agressores. 

E quando os jogadores tiverem ido, 
Depois do tempo os ter já consumido, 
Decerto não terá cessado o rito. 

No Oriente incendiou-se esta guerra 
Cujo anfiteatro é hoje toda a terra. 
Como o outro, este jogo é infinito.

II

Ténue rei, sesgo bispo, encarniçada 
Dama, torre directa e peão ladino 
Sobre o negro e o branco do caminho 
Buscam e travam a batalha armada. 

Não sabem que a mão assinalada 
Do jogador governa o seu destino, 
Não sabem que um rigor adamantino 
Lhes subjuga o arbítrio e a jornada. 

Também o jogador é prisioneiro 
(Frase de Omar) de um outro tabuleiro*
De negras noites e de brancos dias. 

Deus move o jogador que move a peça. 
Que deus atrás de Deus o ardil começa 
De pó e tempo e sonho e agonias?

*A vida é um tabuleiro de xadrez, onde O Destino nos move como peões, dando mates com castigos, quando termina o jogo, nos tira do tabuleiro e nos lança a todos na caixa do Nada. 


(Omar Khayyam, matemático, astrônomo e poeta persa)

(tradução portuguesa UNL)

5 comentários:

Renato Vasconcellos disse...

É curioso esta tua publicação, este é precisamente o meu poema preferido acerca do xadrez, de tal forma que há uns tempos comprei um livro do Luis Borges, onde estava mencionado o mesmo, para melhor poder apreciar a sua escrita. Recordo-me de um outro poema de Fernando Pessoa que passarei a incluir noutra mensagem que também é muito do meu agrado.
Obrigado por nos recordares este poema.

Rini Luyks disse...

Muito boa escolha, Alberto, um vulto da literatura mundial como Borges não podia faltar no nosso blogue. No poema gostei da referência ao "Poeta do Vinho" Omar Khayyam. Tenho um pequeno livro com textos do "Rubaiyat", a vida do poeta foi romanceada na primeira parte do livro "Samarcanda" do grande contador Amin Maalouf.
Quem é um grande admirador de Borges é o GMI holandês Jan Timman. No seu livro "Een sprong in de Noordzee" ("Um salto no Mar do Norte", infelizmente só editado em holandês) ele dedica um capítulo ao encontro que teve com o famoso escritor durante o torneio em Mar del Plata em 1982.
Agora, Alberto, vou dar-te mais uma oportunidade para dizer: "Nada é por acaso!" (como escreveste duas vezes nos comentários ao post "Chess Fever").
Como todos os holandeses, fui sempre um grande admirador de Timman, durante anos "The Best of the West" e autor de livros de xadrez de grande qualidade.
Na Primavera do ano 2000 tive a ousadia de enviar uma carta à redacção da revista New in Chess, convidando Timman para estar presente no Festival de Xadrez de Lisboa. Obviamente não me esqueci de referir que no ano anterior Kasparov e Spassky tinham sido os convidados de honra...mas mesmo assim não estava à espera de uma resposta. Só que numa tarde de Verão o telefone tocou: "Aqui Jan Timman. Afinal não vou jogar o Mundial na Índia e ainda não conheço Lisboa. Apetece-me ir ao vosso Festival!" Eu não estava minimamente preparado para um encontro tão imediato com o meu ídolo, acho que balbuciei umas palavras ("grande honra, fantástico...") que ia informar imediatamente o coordenador do Festival (João Pereira) para acertar as condições do Grande Mestre. "Sim, isto seria agradável", disse Timman. "Então até à vista". "Adeus". O telefonema não durou mais de meio minuto, mas acho que não estraguei nada, pois Timman veio mesmo em Novembro e (como contou João Pereira) para "preço de amigo": 500 dólares mais voo e estadia, uma pechincha.
E qual foi o hotel de Timman?
Claro, "Hotel Borges" no Largo do Chiado!

Rini Luyks disse...

...e descobri que Borges também adorava gatos (post vem a seguir).

Alberto Eggert disse...

Caros Renato e Rini, El Ajedrez, para mim, é além de tudo, um poema sobre O Infinito, um Infinito que cabe dentro de um quadrado tabuleiro!

Alberto Eggert disse...

Nada é por acaso, Rini!!!